sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Educar e ensinar andam juntos

Armandinho: autor Alexandre Beck.

Quando se fala em educação sexual e gênero nas escolas, a reação de muitos fundamentalistas é relegar a escola ao papel de ensinar um conteúdo e reivindicar a educação para si e a família. Vale destacar o Dicionário Aurélio, em sua primeira edição nos anos 1970 (p.532). Para o verbete ensino, cabem vários significados.

"1.transmissão de conhecimentos, de informações ou esclarecimentos úteis ou indispensáveis à educação. 4.esforço orientado para a formação ou a modificação da conduta humana; educação: Esqueceu o ensino que os pais lhe deram."

Isso significa afirmar que educar e ensinar andam juntos e, portanto, educar e ensinar são tarefas da família e, também, da escola. Tanto é que muitos teimam em chamar o professor de educador, mesmo que não valorize a carreira docente, nem defenda melhores condições de trabalho e infraestrutura.

Se a família educa é possível a escola interferir na educação de uma criança mal educada? Aqui temos um componente extremamente subjetivo: o que é educar bem? O que é para um pode não ser para o outro. No entanto, a escola não é apenas um espaço de ensino de matemática, português, história, geografia e outras disciplinas. Nunca foi assim! 

Quando se ataca, por exemplo, a proposta de gênero para debate em sala de aula, os fundamentalistas de sempre abordam a introdução dessa ideologia como se a escola fosse neutra até outro dia. A escola sempre foi ideológica e sempre teve partido. O currículo nunca foi neutro. 

A escola, enquanto instituição social, sempre representou o pensamento de sua elite, tida como branca, masculina, heterossexual e rica. Quando a diversidade bateu no portão da escola, quem sempre doutrinou com base neste perfil desesperou-se. Passaram a atacar a escola e sua doutrinação, como se a escola nunca tive sido doutrinadora. E ela sempre foi. 

A partir do início da democratização do acesso à escola a partir dos anos 1980, a escola tornou-se um ponto de encontro de diversidade e ignorar isso não faz bem. Se a criança educada em casa não respeita o diferente, na escola ela também não vai respeitar os diferentes, vai discriminar, excluir, gerar violência.

Isso significa afirmar que o estrago - com a intolerância e o desrespeito à diversidade - a serem promovidos pela família, muitas que enchem a boca para se dizer de bem, é muito maior que o provocado por professores durante o processo de ensino.

Escola e fracasso escolar

Por que no debate sobre indicadores da educação, um viés que se sobressai - quando a escola fracassa - é a atuação do professor?

Indicadores de baixo desempenho do alunado são proporcionais aos investimentos na área. 

Que tal, discutirmos? e analisarmos? - seriamente, entre outros:

i) as condições de ensino-aprendizagem,
ii) infraestrutura da escola,
iii) (des)valorização do professor,
iv)participação da família no processo de aprendizado.


A escola não fracassa sozinha.
Ela é fruto direto da própria sociedade.

Inquietudes (377) do Rei

O problema não é ser conservador. O problema é o conservador ser estúpido. O Movimento Brasil Livre (MBL) acusa a esquerda de ser ditadora, mas apoia medidas ditatoriais como cancelamento de exposição, censura a espetáculo teatral, porque não gosta do tema. Liberdade de expressão boa, para os fascistas, só a deles. Os outros que se calem! 

Inquietudes (376) do Rei

De que tipo de arte se fala, quando a maioria dos críticos de arte das redes sociais, guiados pelo moralismo e potencializados pelo preconceito, quer combinar o quadro famoso com o sofá?

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Da mesma cepa

"Cenas do Interior II", de Adriana Varejão
Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

O moralismo da família tradicional que fechou a exposição “Queermuseu”, em Porto Alegre, é da mesma cepa do moralismo que não se incomoda com pais e mães da família tradicional que mantêm amantes e vidas duplas.

O moralismo que reage à pedofilia em obras da “Queermuseu”, não comprovada por promotor público, é da mesma cepa do moralismo que não se incomoda com trabalho escravo infantil nem com criança fora da escola.

O moralismo que ataca cenas de zoofilia em obra da “Queermuseu” é da mesma cepa do moralismo que se diverte com causos de iniciação sexual com éguas barranqueiras.

O moralismo que se defende de agressões à fé cristã é da mesma cepa do moralismo que chuta imagens de santos e destrói terreiros de mães e pais de santo.

O moralismo que defende o fechamento de uma exposição de arte é da mesma cepa do moralismo que define o que é arte boa e quem deve ter direito à liberdade de expressão.

O moralismo é um bom parceiro quando se trata de ditar o comportamento do outro, mas quando é para regular a própria conduta... veja bem... não é bem assim.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

O voo


Um dia após o outro e no meio...


Reportagem do jornal Folha de S.Paulo, de ontem dia 27, revela que "o advogado Rodrigo Tacla Duran, que trabalhou para a Odebrecht de 2011 a 2016, acusa o advogado trabalhista Carlos Zucolotto Junior, amigo e padrinho de casamento do juiz Sergio Moro, de intermediar negociações paralelas" com a Operação Lava Jato.

Sergio Moro - juiz da mesma Lava Jato que abusou de acusações usando a imprensa para formar opinião contra acusados, em vazamentos seletivos e direcionados - defendeu o amigo e padrinho. 

Ele disse que é "lamentável que a palavra de um acusado foragido da Justiça brasileira seja utilizada para levantar suspeitas infundadas sobre a atuação da Justiça". A Lava Jato não usa a palavra de bandidos para acusar políticos, contribuindo para o caos institucional e a polarização política atual? Ah, mas nesse caso, pode. Ahan!

E mais. Segundo Moro, "a alegação de Rodrigo Tacla Duran de que o sr. Carlos Zucolotto teria prestado alguma espécie de serviço junto à força-tarefa da Lava Jato ou qualquer serviço relacionado à advocacia criminal é falsa."

Esse episódio tem que ser investigado e dado ao advogado Zucolotto Junior - e ao próprio juiz Sergio Moro - a presunção da inocência. Afinal, essa é uma garantia individual - própria do estado democrático de direito - que a Lava Jato costuma passar por cima. Mas um erro não justifica o outro.

Mesmo assim, esse caso não deixa de expor uma ironia desconcertante. Não é Moro que "idolatra" a palavra de bandido em delação premiada quando esses acusam, mesmo sem provas? Isso sem contar que a Operação Lava Jato é acusada de cometer abusos. Por exemplo, reportagem do UOL, de 2016, apresenta documentos que mostram que a operação teve início em grampo ilegal

Moro divulgou ilegalmente - lembra-se? - o grampo da conversa de Dilma e Lula, inflando ainda mais as ruas contra a presidenta. Nada como um dia após o outro e, no meio, acusações sem provas. Quando se estimula o vale-tudo para atacar os adversários, qualquer um pode ser a vítima. Até o amigo do juiz. E o próprio juiz.

sábado, 26 de agosto de 2017

Por que a surpresa?


O comandante Ricardo de Mello Araújo, da Rota/PM/SP, disse, nesta semana, que a PM tem de fazer abordagens diferentes em bairros ricos (que a imprensa teima em chamar de nobres) e na periferia. Isso significa ser um ponei nos Jardins e um cavalo na favela.

A declaração causou espanto, mas diga aí. Qual é mesmo a surpresa se a sociedade brasileira, em maior ou menor escala conforme a classe social, faz exatamente igual? Pobre não costuma ser bem atendido em lugar algum, seja por autoridades, seja por gente comum. Claro que isso não deve ser obstáculo para se combater a discriminação institucionalizada e o comandante deve ser investigado, por pregar tratamento conforme o bolso do cidadão.

Mas voltando ao espanto... experimente ir "mal vestido" a uma loja num shopping, que tem atendente pobre ou de classe média, e veja o que acontece. Use esse mesmo figurino para ir a um restaurante caro. E o tratamento dado a rico e pobre pela justiça? Todos são iguais perante a lei? Compare o trâmite, na prefeitura, do pedido da associação comercial da cidade com o da associação de moradores do fundão de qualquer lugar. Qual é mais rápido? 

As instituições brasileiras, e por consequência o tratamento dispensado ao cidadão, são a cara do brasileiro médio. Nem mais, nem menos.

Racismo e ódio


Ele ameaça queimar jornalista, mas afirma não ser racista.
Ele diz que “matamos seis milhões de judeus da última vez. Onze milhões [de imigrantes] não são nada”.
Ele diz que sua organização não é de ódio, mas cristã.
Em nome de qual Cristo falam os que fazem discurso de ódio e pregam a exclusão e a morte?

Perdão biblionário


Aquele um - delatadamente corrupto - congela e reduz investimentos sociais, destrói programas públicos, precariza o trabalho, detona direitos do trabalhador, retira aumento real do salário mínimo, quer esvaziar a previdência, mas perdoa dívidas bilionárias do empresariado, o mesmo que ajudou a derrubar Dilma. Entendeu porquê o impeachment é golpe e não era pelo combate à corrupção?


Inquietudes (375) do Rei

Um país que destrói suas políticas sociais e seus programas de transferência de renda, com a ajuda da mídia tradicional, precisa de celebridades para arrecadar uns troquinhos e aliviar a própria consciência. Criança Esperança e congêneres? Nem 20 centavos!

Inquietudes (374) do Rei



O que é ter cara de miss: ser loira e branca? 
Miss negra enlouquece os racistas. Sorry!

Inquietudes (373) do Rei

O que esperar de uma sociedade que afirma ser a educação o futuro do país, mas justifica a agressão de um aluno a uma professora por suas opiniões políticas de esquerda? Não, meus caros, o futuro não está na educação se não ficar claro a quem a ela serve. Como dizia Paulo Freire, "quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor".

domingo, 16 de julho de 2017

Mais protestos, por favor!

Não são condenáveis os protestos no casamento da deputada Maria Victória, filha de Ricardo Barros e Cida Borghetti. 

Condenável é o uso da Polícia Militar como segurança privada no casamento. 

Condenável é o uso de um patrimônio histórico para ostentação. 

Condenável é a destruição do SUS promovido pelo pai da noiva, como ministro protetor dos interesses privados na saúde. 

Condenável é a mãe da noiva ser vice de um governador investigado por fraudes no porto de Paranaguá e na Operação Publicano. 

Condenável é a atuação da deputada do camburão no apoio, entre outras, à destruição da educação básica e das universidades estaduais. 

Quem destrói o Paraná e o Brasil não merece ter paz. Mais protestos, por favor!

Todos, mas nem tanto

Todos os políticos corruptos têm de ser punidos, mas Lula solto incomoda mais que Aécio solto.

Todos os governos têm de respeitar a lei, mas as panelas relinchavam contra Dilma e emudecem contra Temer.

Todos são iguais perante a lei, mas contra os adversários não é necessária prova cabal, basta convicção.

Todos os partidos são iguais, mas o PT é o mais corrupto de todos os tempos.

Político não presta, mas os do campo ideológico oposto prestam menos ainda.

O meu partido é o Brasil, mas não me incomodam a destruição da CLT, a demolição da Previdência, a desvastação das políticas sociais.
   
As jornadas de junho de 2013 mostraram que movimento político apolítico e apartidário é tomado e usado por quem faz política partidária da pior espécie.
   
E você continua acreditando que política não se discute?